E de repente veio a morte, desceu sobre a vila dissolvida no vento, varreu das ruas os espectros, tombou portas carunchosas, abriu janelas e esfriou compartimentos vazios. Tentaram-lhe parar o intuito, fracassaram, uns e outros equilibrados nas bengalas apodreceram nas esquinas onde se enraizavam havia anos. Alguns ergueram-se dos sepulcros no dia da enxurrada por se terem esgotado mãos que limpassem os bueiros, os ossos estalaram, os crânios espreitavam aqui e além por entre anjos derrubados e um Jesus Cristo vergado. Ainda tinham o cabelo e as unhas, as roupas, farrapos podres espalhavam-se pelas ruas desertas. O Tempo não pára, a vingança urre dos céus, bate como trovão enraivecido sobre a árvore e racha-nos a lógica. Existo?
Chamas nocturnas consumiram o imponente edifício dos Paços do Concelho, não se sabem quem lhas ateou, o telhado colapsou e enterrou os três andares sob o seu peso, um emaranhado de ferro, madeira e cimento avista-se ao longe e destaca-se da pacatez monocromática das pequenas casas circundantes. Quem diria que o Palácio dos Palhaços ruiria sob a égide do tempo e da mudança,
– do local onde me sento sinto a brisa mortal e o odor nauseante da podridão da carne pairar sobre este local, uma imponente sombra de pedra pesa-me sobre as costas, cabe-me na mão aquela vida, aquele local –
quem diria que o Poder abandonaria estas encostas desbravadas pelo Homem há séculos.
Poucos cruzam este ermo longínquo, os que o fazem ou é pela beleza das imagens, dos quadros que pintam espreitando pela janela ou é pela pilhagem. Alguns ainda pernoitam pelo misticismo, pelo medo, pelo sobrenatural. Acendem uma fogueira, aventuram-se pelos quelhos silenciosos – diz-se que os Homens que habitaram este local se comeram uns aos outros até não restar carne humana – e sentindo o olhar das sombras fogem ofegantes. Quantas sombras moram na eternidade, nas paredes, nas árvores? Moram as dos que ali sussurraram mentiras e verdades, dos que chuparam a seiva à República no Palácio dos Palhaços, dos que foram Pobres toda a vida por tentarem extrair da moeda riqueza, dos que abalados pela indiferença venderam pele e osso e apodreceram vivos, culpados da Injustiça, da desigualdade.
- O bramir das sombras persegue-me, ouço-o na música distorcida que o velho rádio teima em jorrar, sinto-o na névoa que galga os socalcos encosta acima. Conheci em tempos a carne que preenchia essas memórias, alguns ainda me surgem em sono, sofrem torturas numa espécie de limbo. –
A escola ruiu, no campo de jogos duas balizas sustentam-se torcidas pelo tempo, uma vénia à ferrugem dirão os que por aqui passarem. Rascunhos indecifráveis pintam as paredes, verdades incontestáveis em tempos lêem-se pelo chão. Se nos deitarmos no alcatrão gelado e escorregadio ainda escutamos os gritos abafados das crianças, e logo se erguem as suas figuras, mecânicas e pálidas, coçadas do tempo que as escorreu, que as sugou, mas riem, riem alto, e choram, choram alto. Houve em tempos quem lhes ensinasse quem eram, o que seriam, forçadas seriam felizes, indesmentíveis, indestrutíveis. Não se questionariam, não questionariam o Outro, nem Deus, nem o Diabo. Cresceriam fortes como raízes de sobreiro d e responderiam apenas e só face às convenções que lhes agradassem, seriam imóveis, estanques como verdade absoluta, dormiriam de carne exposta, segregando o odor execrável da falsidade e pela manhã adquiriam a face que mais lhes conviesse para o dia de chuva ou sol. Conheci alguns, durante pouco tempo, mudaram com o tic tac do ponteiro, uns e outros ainda me alcançam durante a noite, outros morreram com os séculos, transformados em pó.
Não sobra ninguém, morreram todos, morreram mesmo aqueles que não queriam morrer, morreram até os que já estavam mortos por deixarem de ter quem deles se lembrasse nessa condição. Morreram os endinheirados e os descalços, os que sobreviveram, esfarrapados e engomados, vaguearam pelas ruas sem terem a quem demonstrar tal condição. Então veio o dia que amanheceu cinzento, e a tarde silenciosa e a noite de breu. E calaram-se as vozes com gritos mudos que abalavam a morte mas que não abalavam o tempo, e esse arrancara já com a sua vingança fazia muito tempo, ruminava, ruminava desde o início do pensamento.
Chamas nocturnas consumiram o imponente edifício dos Paços do Concelho, não se sabem quem lhas ateou, o telhado colapsou e enterrou os três andares sob o seu peso, um emaranhado de ferro, madeira e cimento avista-se ao longe e destaca-se da pacatez monocromática das pequenas casas circundantes. Quem diria que o Palácio dos Palhaços ruiria sob a égide do tempo e da mudança,
– do local onde me sento sinto a brisa mortal e o odor nauseante da podridão da carne pairar sobre este local, uma imponente sombra de pedra pesa-me sobre as costas, cabe-me na mão aquela vida, aquele local –
quem diria que o Poder abandonaria estas encostas desbravadas pelo Homem há séculos.
Poucos cruzam este ermo longínquo, os que o fazem ou é pela beleza das imagens, dos quadros que pintam espreitando pela janela ou é pela pilhagem. Alguns ainda pernoitam pelo misticismo, pelo medo, pelo sobrenatural. Acendem uma fogueira, aventuram-se pelos quelhos silenciosos – diz-se que os Homens que habitaram este local se comeram uns aos outros até não restar carne humana – e sentindo o olhar das sombras fogem ofegantes. Quantas sombras moram na eternidade, nas paredes, nas árvores? Moram as dos que ali sussurraram mentiras e verdades, dos que chuparam a seiva à República no Palácio dos Palhaços, dos que foram Pobres toda a vida por tentarem extrair da moeda riqueza, dos que abalados pela indiferença venderam pele e osso e apodreceram vivos, culpados da Injustiça, da desigualdade.
- O bramir das sombras persegue-me, ouço-o na música distorcida que o velho rádio teima em jorrar, sinto-o na névoa que galga os socalcos encosta acima. Conheci em tempos a carne que preenchia essas memórias, alguns ainda me surgem em sono, sofrem torturas numa espécie de limbo. –
A escola ruiu, no campo de jogos duas balizas sustentam-se torcidas pelo tempo, uma vénia à ferrugem dirão os que por aqui passarem. Rascunhos indecifráveis pintam as paredes, verdades incontestáveis em tempos lêem-se pelo chão. Se nos deitarmos no alcatrão gelado e escorregadio ainda escutamos os gritos abafados das crianças, e logo se erguem as suas figuras, mecânicas e pálidas, coçadas do tempo que as escorreu, que as sugou, mas riem, riem alto, e choram, choram alto. Houve em tempos quem lhes ensinasse quem eram, o que seriam, forçadas seriam felizes, indesmentíveis, indestrutíveis. Não se questionariam, não questionariam o Outro, nem Deus, nem o Diabo. Cresceriam fortes como raízes de sobreiro d e responderiam apenas e só face às convenções que lhes agradassem, seriam imóveis, estanques como verdade absoluta, dormiriam de carne exposta, segregando o odor execrável da falsidade e pela manhã adquiriam a face que mais lhes conviesse para o dia de chuva ou sol. Conheci alguns, durante pouco tempo, mudaram com o tic tac do ponteiro, uns e outros ainda me alcançam durante a noite, outros morreram com os séculos, transformados em pó.
Não sobra ninguém, morreram todos, morreram mesmo aqueles que não queriam morrer, morreram até os que já estavam mortos por deixarem de ter quem deles se lembrasse nessa condição. Morreram os endinheirados e os descalços, os que sobreviveram, esfarrapados e engomados, vaguearam pelas ruas sem terem a quem demonstrar tal condição. Então veio o dia que amanheceu cinzento, e a tarde silenciosa e a noite de breu. E calaram-se as vozes com gritos mudos que abalavam a morte mas que não abalavam o tempo, e esse arrancara já com a sua vingança fazia muito tempo, ruminava, ruminava desde o início do pensamento.
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