Sexta-feira, 19 de Novembro de 2010

V

E de repente veio a morte, desceu sobre a vila dissolvida no vento, varreu das ruas os espectros, tombou portas carunchosas, abriu janelas e esfriou compartimentos vazios. Tentaram-lhe parar o intuito, fracassaram, uns e outros equilibrados nas bengalas apodreceram nas esquinas onde se enraizavam havia anos. Alguns ergueram-se dos sepulcros no dia da enxurrada por se terem esgotado mãos que limpassem os bueiros, os ossos estalaram, os crânios espreitavam aqui e além por entre anjos derrubados e um Jesus Cristo vergado. Ainda tinham o cabelo e as unhas, as roupas, farrapos podres espalhavam-se pelas ruas desertas. O Tempo não pára, a vingança urre dos céus, bate como trovão enraivecido sobre a árvore e racha-nos a lógica. Existo?
Chamas nocturnas consumiram o imponente edifício dos Paços do Concelho, não se sabem quem lhas ateou, o telhado colapsou e enterrou os três andares sob o seu peso, um emaranhado de ferro, madeira e cimento avista-se ao longe e destaca-se da pacatez monocromática das pequenas casas circundantes. Quem diria que o Palácio dos Palhaços ruiria sob a égide do tempo e da mudança,
– do local onde me sento sinto a brisa mortal e o odor nauseante da podridão da carne pairar sobre este local, uma imponente sombra de pedra pesa-me sobre as costas, cabe-me na mão aquela vida, aquele local –
quem diria que o Poder abandonaria estas encostas desbravadas pelo Homem há séculos.
Poucos cruzam este ermo longínquo, os que o fazem ou é pela beleza das imagens, dos quadros que pintam espreitando pela janela ou é pela pilhagem. Alguns ainda pernoitam pelo misticismo, pelo medo, pelo sobrenatural. Acendem uma fogueira, aventuram-se pelos quelhos silenciosos – diz-se que os Homens que habitaram este local se comeram uns aos outros até não restar carne humana – e sentindo o olhar das sombras fogem ofegantes. Quantas sombras moram na eternidade, nas paredes, nas árvores? Moram as dos que ali sussurraram mentiras e verdades, dos que chuparam a seiva à República no Palácio dos Palhaços, dos que foram Pobres toda a vida por tentarem extrair da moeda riqueza, dos que abalados pela indiferença venderam pele e osso e apodreceram vivos, culpados da Injustiça, da desigualdade.
- O bramir das sombras persegue-me, ouço-o na música distorcida que o velho rádio teima em jorrar, sinto-o na névoa que galga os socalcos encosta acima. Conheci em tempos a carne que preenchia essas memórias, alguns ainda me surgem em sono, sofrem torturas numa espécie de limbo. –
A escola ruiu, no campo de jogos duas balizas sustentam-se torcidas pelo tempo, uma vénia à ferrugem dirão os que por aqui passarem. Rascunhos indecifráveis pintam as paredes, verdades incontestáveis em tempos lêem-se pelo chão. Se nos deitarmos no alcatrão gelado e escorregadio ainda escutamos os gritos abafados das crianças, e logo se erguem as suas figuras, mecânicas e pálidas, coçadas do tempo que as escorreu, que as sugou, mas riem, riem alto, e choram, choram alto. Houve em tempos quem lhes ensinasse quem eram, o que seriam, forçadas seriam felizes, indesmentíveis, indestrutíveis. Não se questionariam, não questionariam o Outro, nem Deus, nem o Diabo. Cresceriam fortes como raízes de sobreiro d e responderiam apenas e só face às convenções que lhes agradassem, seriam imóveis, estanques como verdade absoluta, dormiriam de carne exposta, segregando o odor execrável da falsidade e pela manhã adquiriam a face que mais lhes conviesse para o dia de chuva ou sol. Conheci alguns, durante pouco tempo, mudaram com o tic tac do ponteiro, uns e outros ainda me alcançam durante a noite, outros morreram com os séculos, transformados em pó.
Não sobra ninguém, morreram todos, morreram mesmo aqueles que não queriam morrer, morreram até os que já estavam mortos por deixarem de ter quem deles se lembrasse nessa condição. Morreram os endinheirados e os descalços, os que sobreviveram, esfarrapados e engomados, vaguearam pelas ruas sem terem a quem demonstrar tal condição. Então veio o dia que amanheceu cinzento, e a tarde silenciosa e a noite de breu. E calaram-se as vozes com gritos mudos que abalavam a morte mas que não abalavam o tempo, e esse arrancara já com a sua vingança fazia muito tempo, ruminava, ruminava desde o início do pensamento.

Sexta-feira, 11 de Junho de 2010

IV

O sangue trilhava o seu caminho Montanha abaixo por onde outrora deslizara suave o ribeiro. Sentado numa rocha sentia o pulsar da terra embalar-me num balanço de dor, queres dizer-me quem és, o que és, ao que vieste? existes no tempo bem sei, no tempo dos olhos que te vêm.
É um suspiro da terra, sinto-o no movimento, digere o vazio do silêncio por nele não existir, ouvir-se-á o estalar de um ramo na ausência de ouvidos que o interpretem, qual será o som do estalar na ausência? haverá carne sem outra com que se lhe compare? haverá ódio sem amor que se lhe compare? haverá signo e sinal e palavra virgens, diz-me, mas tu dizendo-me perdes a pureza da primeira vez, já aconteceu, perdi-o, escapou-se-me sempre por ter acontecido em mim.
Passei pelo Tempo, descansava de si mesmo à sombra de um sobreiro, espreguiçava-se descontraído, não volta atrás, não tem presente nem passado ou futuro que o torne o que não é ou o contrarie, deixa-se estar quieto e sereno na sombra do que é, por saber que nunca foi ou nunca será, é apenas, quem me dera ser apenas. O Tempo levantou-se e passou por mim, secou-me a pele da mão que observo, nesta mão sei que fui, mas fui? sou? vou ser? tenho presente uma linha que me segue, nela me disponho-me sem trás nem frente, sigo recto. O sangue corre, intensifica-se, grosso e quente, consigo senti-lo daqui, e as palavras ecoam Montanha abaixo mais rápidas que som do sangue sobre a areia seca. São gritos, ocos, abafados, desesperados por galgar a barreira do som, subo em direcção ao ruído, e o embate das ondas sonoras aumenta, cães ladram, o chiar do vento aqui e ali, o sol deita-se sobre o planalto, uma e outra vez, agora cortantes de dor, a torrente segue.
Dei por fim com a nascente, vergado sobre o carreiro trilhado pela água pende o pescoço de um cabrito, olhos profundos de uma névoa crescente, no pescoço o golpe estripador de vida, o vermelho quente a jorrar e aquela mão bruta e enorme, negra do sol, golpeada da navalha e enrugada de uma qualquer vida. Olho-o de frente, dos lados, de trás, olho-o com inocência. Desdentado, a boca esventrada do tabaco, uma fronte de figadeira e um bigode de estadista. Quem te deu vida e para quê? sorri orgulhoso, lambe a faca ensanguentada, sorri novamente, os lábios vivos de sangue, a língua escarnecida, de que te alimentas?
- E vai mais um! Este bem que esperneou mas eu espetei-lha bem fundo na goela.
Viro-te as costas pedaço de existência, quem te abriu a porta do Mundo enganou-se com certeza. Vou ouvir o vento, o cão ladra, lá ao fundo o vale sussurra-me que retorne a mim, faço-lhe a vontade. A torrente cessou, o céu escureceu e os gritos de dor dissiparam-se no meu silêncio, eles só eram meus, gritos de dor, vejo-lhes os dentes podres rirem, eram gritos de Deus dir-me-ia ele, porque foi Deus que comandou a mão, não culpes.

Quarta-feira, 26 de Maio de 2010

III



Veio sorrateiro como quem não quer ser ouvido mas sendo-o não se denuncia. Era frio e fino, dançava nos troncos e nas folhas acelerando e abrandando como quem respira cansado. Superara os dois cumes que tocavam o céu e apresentava-se agora por entre os sussurros dos mesmos, falavam a mesma língua e viajando pelo mesmo canal entrelaçavam-se numa doce melodia e numa atrevida dança de simbolismos. Quem te mandou ficar no entulho, onde o betão distorcido erguido à névoa nefasta se alastra como mancha, alguém to pediu? Aqui me desconstruo sozinho, deitado sobre os estilhaços de ti e da vida, fluis sempre para mim sem que to peça. Já se foi, deixou-me só no seu balbuciar de outros mundos, ainda o senti deslizar pelo vale que se estende longo e subtil até ao horizonte mas a podridão da idade arremessou-me ao velho cadeirão que detestavas.
Foste a última sombra neste vale, desde desse dia nunca mais a carne se entrepôs entre a árida terra comida de vida e o imponente Sol que por aqui se impõe com ávida pujança. A quem deste as últimas palavras dessa existência? Terás repetido os mesmos tons, os mesmos livros, as mesmas pedras geladas onde te sentavas a olhar o vazio da cidade que sempre acabavas por amar. Nunca voltei para descobrir, este pedaço de nada encheu-me, ririas como sempre eu sei em tom de superioridade e dir-me-ias que o nada não enche o que quer que seja. Mas eu bem te posso dizer que enche e que até transborda, e que dói como se te tivesses empanturrado em carne mal passada e nos dentes o sangue te nauseasse e do estômago crescesse uma vontade de expulsar aquela porcaria.
Abro os olhos, despedi-me de ti ontem?, não importa. Tenho mais um dia de vida, quem mo disse fui eu mal acordei.

Sexta-feira, 5 de Março de 2010

II

A chuva bate incansável sobre o vidro, o vento sopra pelos telhados e assobia no zinco das barracas, canta o seu poder aos pobres enquanto escapa pelos vales. A tarde já vai longa no relógio, é uma tarde de Inverno das que só se sentem esvair para a noite nos ponteiros. Do rádio brota uma doce melodia que me enche os ouvidos enquanto divago visualmente sobre a minha campa, é rasa e despida de qualquer sofrimento alheio por mim, à minha cabeça uma cruz de lata enferrujada dita uma data distante do hoje, sorrio daquele pedaço de terra desperdiçado por mim. Volto ao quarto, estou sentado, fito a parede comida da humidade enquanto o gato me passa pelas pernas o calor de um afecto gratuito, sento-o ao colo e sinto-lhe no pêlo o gelo das minhas mãos. As teclas do piano ressoam pelo quarto ao toque dos dedos de um pianista que me chegue pela antena do velho rádio e cuja melodia pinta o quarto de um vermelho dor. Acendo um cigarro, o fumo azulado sobe em espiral e esfuma-se quando esbate no tecto cujas manchas negras desenham um arquipélago que se propaga sobre o fundo branco, o que faço aqui? sentado sobre a inércia dos membros que me aprisionam a mente.
Noite, chegaste antes do combinado, olhei-te agora pela frincha na película que cobre o vidro. Distingues-te fácil na escuridão por que a és. Não me chames que hoje não vou caminhar-te, a chuva não cessa e eu sou avesso à água dos céus, vai que me purifica o espírito e caio em declínio, deixa-me ser como sou, não ouço uma palavra há vários dias, não os consigo quantificar, deve ter sido há muito mesmo. E o espelho, nem sei por onde descansa cansado por certo do meu reflexo, quem sou? neste momento não sei, quantifico e significo-me no monólogo que mantenho acordado penso eu. Sou as teclas do piano escolhidas ao acaso, logo não serei música, sou as manchas do tecto, logo inconsistente, sou o que a imaginação me permite ser no imaginário limitado do meu dicionário. Calma, sou mais, sou as imagens sem definição, sou as palavras sem objecto, sou o que ainda está para vir, o que fermenta nos anais da loucura, serei a loucura, não ouço uma palavra há dias, começa-me a faltar a definição de loucura.
Deito-me, encho a cama de carne, da minha. Os ossos enregelados estalam nos movimentos da insónia, para que me deito? talvez para mudar a posição, o gato mia, deve andar alguma gata por aí a seduzi-lo, tens sorte, o teu miar está ditado em ti, não te sorve a escolha, não a fazes, não precisas, não constróis a necessidade, ela entranha-se e toma-te nela. Também conheço pessoas assim, mas essas só se sabem depois de se saberem nos outros. Viro-me para a janela, descanso as ideias, assentam também elas no colchão. Estou cansado, velho, já só me sobra a carcaça.

Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2010

I

Lembro-me de sonhar ser escritor, as palavras dos outros inspiravam-me ao limite, moldavam-me, apaziguavam-me quando na sombra me achava sempre invisível e indivisível. Era fulano, era sicrano, eram as palavras e a paleta de cores que elas me espelhavam. Sonhava assim, acordado, mas não é assim que é pressuposto nós sonharmos? acordados. Naquele tempo, nas memórias que guardo, acho-me sonhador, idílico, utópico, acho-me perfeito no início do mundo, no despontar da Primavera. – Então o que serás? Serei o que fizer de mim no tempo que me reservar o mesmo, serei na memória de quem me guardar, serei na lápide de quem a vir se alguém ficar até ao fim dos tempos para a ver, serei na memória inconsistente, serei na neve que me cobrir a campa. Mas eu quero ser no vento que não é de alguém, quero ser nas cinzas, quero ser no esquecimento, esquecimento? mas assim serei na lembrança do esquecimento, não será esquecimento, será desrespeito, ignorado.
Lembro-me das notas doces que ressoavam pelo vazio do corredor, acariciavam a tinta, pintavam-me clássico quando me abraçavam na sala onde eu moribundo as absorvia como a chuva de Outono sempre que saía para caminhar sobre os campos castanhos cinza. Caminhavam sozinhas, voavam pelo amargo aroma da chuva no solo, entranhavam-se da humidade da época e colavam-se-me à pele. Eram a melodia mais melodia que alguma vez se tinha desprendido perante mim das ondas hertzianas que sempre amei, era uma profundidade silenciosa e calma, onde a escuridão mais não era do que a ponte para a mais perfeita audição, aniquile-se o ruído sonoro! e as teclas acariciadas e agredidas trarão consigo o deleite do respirar. Era assim no começo de mim!
Lembro-me daquele mar de fogo, lembro-me da brisa que levantava quando passava sobre mim com os passos inaudíveis de alma, com os gestos delicados de obra-prima, com a cor adocicada. Socorria-se das mãos, da mestria dos dedos, linhas cortando destinos no papel amarelecido, e cabelos, bocas, olhos, contornos e desejos. Palavras e histórias e muito mais, cabia um mundo no rectângulo, mais do que uma cabeça e membros, mais do técnica, mais do que sentimento. E ainda assim na neve não te via a não ser no tacto dos dedos que te desvendavam bem mais aveludada do que o mar branco que cobria o início do mundo És a pureza na brancura da espuma que me cobre as pálpebras e me sufoca na banheira gelada da tua pele. És no alpendre da memória o fogo que fere o inocente, que me queima a pele desprotegida, que me afaga a solidão dos quatros cantos do quarto quando na imensidão da noite me proponho amar. És o mundo da manhã e do final da noite.

Domingo, 31 de Janeiro de 2010

O Ciclo Vicioso

O J. é Presidente da Câmara de T., o outro J., mais conhecido por J.P. era o antigo Presidente da Câmara que agora é presidida pelo J..
O J. era um homem persistente, é. Pequeno, cabeça enterrada nos ombros, ou seja, sem pescoço. O fato azul-escuro, a gravata que brota do queixo, uma barba farta e grisalha. Passa por mim de carro, conduz lentamente como que chamando a atenção sobre a sua presença, olha em redor constantemente, espera a vénia, de outros o escarro. O J.P. era um homem acomodado, é. Pequeno, na cabeça um distinto capachinho que não se disfarça facilmente perante o olhar mais curioso. O fato preto, a gravata alinhada com o cinto, a face limpa, o olhar altivo, a cabeça caprichosamente inclinada para trás. Escondeu-se na toca, não tem saído.
T. é uma pequena vila, escura, sinistra. Sofre de problemas nas costas devido à posição em que se encontra deitada sobre os socalcos que a precipitam para o rio. É triste, ela também é triste. Ainda assim ela é especial, encerram-se sobre os seus limites os mais absurdos enigmas, as mais vis lutas, ignorância, ignorância! A sua gente é pobre, desdentada, imoral. Não têm opção dizem eles, eu cá não sei mas parece-me que o Abecedário é igual em todo o território. Mas não, as leis por lá são outras, são mais justas, mais actuais, mais? eles dizem que sim.
J. era um homem tolerante, culto, afável ao trato. De presunção escondida, pobreza encetada, lá seguia pelas ruas chorando as calúnias e exaltando-se aos olhos menos treinados. Sorria de dente sempre afiado, pregava sempre de ar angelical, preocupado. Foi semeando a sua vontade durante anos, mesmo derrotado, sorria, feliz. J.P. era o irascível, o mal feitor, o vampiro das gentes pobres. Caminhava sempre desequilibrado, a cabeça altiva, o suficiente para não deixar o capachinho cair. O olhar sempre fixo no horizonte, deviam ter-lhe dito que nem todos queriam o seu olhar, logo, podia olhar para onde quisesse. Não dizia palavra, nem a vendia, tinha o dom da palavra nas suas palavras, nas dos outros nunca li tal conclusão.
Havia muitos anos que J.P. empunhando o poder concedido pelo sufrágio dirigia com mão benevolente para com os amigos o destino do Município. Aclamado, escritor, músico, impulsionador da cultura, três vivas e uma estátua gritavam em bom-tom os seus apoiantes. Chupador de sangue, elitista, ladrão, ditador, gritavam os detractores, auto nomeados perseguidores da verdade! Chegou então o dia em que ninguém acreditava, haviam sido quinze dias de neblina, neblina tão intensa que havia baralhado até as ideologias da população. Os que apoiavam o J.P. deixaram de o apoiar para apoiar o J., alguns que sempre apoiaram o J. tinham medo de o apoiar e apoiavam o J.P., mas esses que apoiavam o J.P. agora, queriam mesmo era apoiar o J., havia ainda os que não apoiavam nem o J. nem o J.P., mas esses não apareciam logo ninguém sabia se eles apoiavam o J. ou o J.P.. O J. lá ganhou por escassa vantagem, não se iludiu, era necessária a mudança, homem justo, era hora de pagar as ajudas.
J. sempre exprimira que J.P. tinha muitos porcos na pocilga, vai daí, tratou de mandar os porcos em excesso para uma mobilidade fixa, os porcos roncaram de desgosto, empunharam a injustiça com argumentos de justiça, tentaram até travar, quem sabe, uma luta na lama com o J., mas o J. não se deixou intimidar e prosseguiu com a chacina. Estou com pena dos porcos, coitados, atribuíram-lhes lugar indevido na pocilga e isso já bastava para se sentirem humilhados, mas serem cozinhados no próprio tacho…

Depravação: perverter, alterar, estragar.

Segunda-feira, 18 de Janeiro de 2010

Tempo

Rebenta-me o focinho cabrão, bate bardamerda, olha que não te sobra nada. Ris-te seco, abres essa bocarra e destapas a podridão desses dentes. Bate, esmurra, despacha-te que a glória escapa lamacenta por entre esses dedos inúteis. Injectam-se-te os olhos de raiva, deixa fluir, deixa-a explodir-me na face. Não te culpes, não reprimas o animal que és, que te corrói as veias, que te glorifica na visão da luta sangrenta e viril, do prémio, do coito, dessa consagração.
Deixas escapar-te o tempo, não o queres? vives deitado sobre o relógio, ouves o tic-tac e sorris, mais um dia que escorre pelos ponteiros e tu feliz. Entras no carro, conduzes, enfureces-te, tic-tac, e mais algum já se queimou por entre o silêncio da sala vazia. O leve sabor do jantar viaja pelo corredor solitário e abraça-te os lábios rachados pelo frio. Lá sorris outra vez, entras de memória formatada, o emprego lá ficou, o filho da puta no trânsito também. De que alimentas? para além do cordeiro que jaze estendido na mesa, degolado, estripado da vida. De que alimentas? do animal que és?
Vejo-te o bigode gorduroso, a face aberta de alegria, o botão da camisa forçado. Enoja-me mais a tua carne do que a que pende dessa boca semiaberta. Acaba de engolir essa pele, ainda te vomito para cima! As batatas sobram no prato acompanhadas por essa mistela verde alface. Come a mistela como a tua mãe te manda, a banha pendurada já te rebenta com o cinto, come! olha que a coitada tem medo de te ter de fraldas estendido numa cama, obeso, inútil, um vegetal ignóbil.
Em que pensas sentado, pesado e inerte nesse entorpecimento. Não pensas no tempo, mentaliza-te que ele não volta, esvai-se na fluidez dele mesmo. Deves ser dos imortais, vai preparando a viagem, vai preparando as tábuas, olha que ainda sacas o bilhete primeiro do que a tua mãe. Apetece-me gritar-te para te levantares, tu não me vês, apercebo-me disso no pequeno espelho, és o reflexo do imaginário colectivo, perduras na concepção do Homem pelo Homem, não és puro, és ideia, és corrupção. Já te disse que o vi no espelho, viro-te agora as costas, mas não me vês? solto as palavras da minha boca, não controlo o impulso que as gera. Falo para o nada, para o nada? falo e acabou-se. Ninguém me vê, interrogo-me na escuridão, nem eu me vejo. Eles vêm-me na luz como eu me vejo na escuridão, ou seja, não vejo.

Reminiscência: coisa de que se guardou memória inconscientemente.